Há alguns anos eu venho chamando a atenção para o excesso de zelo técnico em detrimento do básico: maior atenção na troca de emoções entre o interprete e o ouvinte... É certo que os recursos de gravações aumentaram muito a facilidade de se registrar com muita perfeição as performances de músicos e artistas. Ritmo, afinação, ambientes..., tudo hoje pode ser tecnicamente corrigido, deixando uma certa aparente perfeição na produção de maneira geral... Mas e a emoção? Como corrigir o que emite o coração do artista?
Os objetivos da música popular vem cada vez mais se “afunilando” para um só fim: a dança, o baile... Antes tínhamos quatro elementos importantes: letra, melodia, harmonia e ritmo... Aparentemente isto hoje está cada vez mais resumido em um só elemento: o ritmo.
Vejam os exemplos da tecno, ou em outra ponta o axé ou até o pagode moderno ou o novo forró, ou “calipso” (???)... Qual a importância de uma sequencia harmônica criativa ou poesia nestes casos...? Tudo bem, faz parte e vale tudo diante da aprovação da grande maioria da população e pela alegria evidente da galera, afinal “a voz do povo é a voz de Deus”... Mas haja fé cara!...
Tudo poderia conviver na execução pública, mas apesar dos esforços técnicos para chegarmos a excelentes resultados com gravações estéreo, digitais, 5.1..., 7.1,... autorações em Blue Ray etc..., aparentemente a emoção está voltando ao sistema mono... Ou melhor, o que era para atingir também mentes e corações, cada vez mais só atinge os pés, os quadris ou outras partes do corpo mais em evidência atualmente. Gravações perfeitíssimas de graves, médios e agudos, transparência na superposição de instrumentos, aspecto sonoro de audição das mixagens, ritmos que não mudam de andamento do começo ao fim... vocais afinadíssimos, tudo cada vez mais perfeito... Parabéns engenheiros e técnicos, mas e a emoção srs produtores musicais e srs do marketing da música?... Até que ponto tanto apuro técnico chega a ter alguma utilidade neste cenário do nosso mercado de música atualmente?
Sem puritanismo ou qualquer tipo de preconceito gente, mas e o resto? Quer dizer que o povão agora só se interessa pelo bumbo? Tudo bem, graves são emoção, mas nem precisa mais de harmonia? Pra que versos se basta então gritar: “pulando! , agora pra frente!, pra trás!, pro lado!, pro outro!”...?
Onde está a alma do artista? Cadê o conteúdo e a E-MO-ÇÃO? O artista então virou uma espécie de "interprete-executivo-do-marketing-musical"?
“Eu quero uma casa no campo...” Me façam dançar, mas me façam também rir, pensar e até chorar... que tal?
A tecnologia pode ser criativa para passar emoções... mas a função dos plug ins e periféricos não pode ser exclusivamente criar uma bela moldura para um quadro vazio, sem cores, sombras e contrastes...
Pesquisas e estatísticas constatam fatos e deveriam servir para novas estratégias para garantir números, mas não tem criado novas situações que mudem o mercado em geral e apenas reafirmam o que todo mundo já está sabendo. Um círculo perni-vicioso...
Pra que guardar o que vai se repetir infinitamente? Basta só ouvir e descartar porque logo virá algo igual ou bem semelhante. Porque produtos de antigos artistas são guardados para sempre e passados de gerações a gerações e os novos são sumariamente descartados? Não são tecnologicamente e mercadologicamente mais perfeitos?
“Eh, ôô, vida de gado, Povo marcado, Povo feliz...” Como gostar de algo que eu não conheço? Como saber se o sabor é bom sem sentir na boca o gosto do tempero?
Qual a força psicológica por trás de tudo isso que não retém uma arte nos corações e mentes das pessoas? Apenas e tão-somente a facilidade dos downloads e piratataria?
Se é certo que “existem mais segredos entre o céu e a terra do que pode supor a nossa vã filosofia”, seria bom que atentassem um pouco mais para a alta sensibilidade ainda desconhecida do nosso organismo, que rege esta eterna luta entre a razão e a emoção...
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